Dia a dia – por Milton Bigucci

Dia a dia
Milton Bigucci –  22 de outubro de 2008

Levantei cedo. Fazia muito frio. Fiz as necessidades e aí percebi que faltava água. Era o dia de racionamento de água por falta de chuva na cidade.

Liguei o carro, percebi que não tinha combustível, parei no primeiro posto e o frentista me informou que a gasolina tinha aumentado 6%. Falei nervoso: “mas a inflação não está quase zero?”

No primeiro semáforo parei na primeira fila. O guarda meteu a caneta. Duas infrações: estava sem cinto de segurança e era dia de rodízio do meu carro. Além do custo, perdi não sei quantos pontos na carteira. Fui em frente.

Avenida Domingos de Moraes, esquina com Praça da Árvore, vidro abaixado, um pivete me mete um canivete no pescoço e eu lhe presenteio com o meu relógio de estimação (ganhei do meu filho caçula). Já bastante nervoso continuo em frente.

Avenida Paulista, uma pista interditada: desfile dos gays. O trânsito vira um inferno.

Chego ao trabalho. Um caminhão tinha batido em um poste e estava consertando. Subi ao 18º andar a pé. O elevador não funcionava.

Hora do almoço, vou ao posto do INSS receber a pensão da minha sogra. Fila homérica. Sou maltratado. Fico nervoso.

Na rua passo ao lado de um confronto entre os fiscais da Prefeitura de São Paulo e os camelôs. Guerra campal. Volto ao trabalho. Agora o elevador já está funcionando.

À noite volto ao meu lar. Não consigo passar de novo na Av. Paulista. Agora é o Movimento dos Sem-Teto reivindicando moradia. Continuo irritado. A polícia só observa. Já é tarde. Tento ligar para minha casa. O telefone está mudo. Minha filha me liga pelo celular dela e me informa que o telefone de casa foi cortado por falta de pagamento da conta. O boy só pagou a de ligações locais.

Chego em casa. Estou abrindo a porta da garagem e dois assaltantes, de armas na mão, roubam o meu carro e me desejam boa noite. São muito corteses.

Entro em casa. Levo uma senhora bronca da esposa por estar chegando tarde. “Onde é que você andou?” diz ela. Fui pra…, respondo. Minha mulher vai dormir triste. Como um jantar gelado e vou dormir.

Amanhã é outro dia. Como diz um amigo meu: “Adoro viver na cidade grande”. A diferença entre eu e os outros cidadãos que aqui vivem, é que estes fatos corriqueiros em uma região como a Grande São Paulo, acontecem espaçadamente para os outros e comigo aconteceu em um único dia!

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